SÓ AOS NOVENTA
Não quis mais saber daquela casa. Pediu a uma das filhas – a que sempre lhe visitava – que o levasse de volta para o interior. Desejava morrer na sua pequena cidade. Ali nascera, crescera, ficara rico, ali casara e criara os filhos. Depois do que presenciara e da tristeza que sentira, a casa da capital, onde havia decidido passar seus últimos dias, já não lhe oferecia a paz esperada, nem lhe inspirava a confiança e a tranqüilidade que queria. Aos noventa anos – raros alguns momentos de turbulências – ostentava uma lucidez de gente nova. Os netos faziam silêncio e se acomodavam em círculo para ouvir suas histórias. Adorava um banho de praia e até uma cachacinha ou uma taça de vinho tinha ainda por costume. Morava com a filha mais nova, que nem tão nova era: entrara nos quarenta naquele ano. A única solteira e por esse motivo, os irmãos e as irmãs acharam que era a pessoa mais indicada para cuidar do pai. Dar-lhe apoio, acompanhá-lo em suas necessidades. Teve a melhor herança ...