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Mostrando postagens com o rótulo Conto

SÓ AOS NOVENTA

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Não quis mais saber daquela casa. Pediu a uma das filhas – a que sempre lhe visitava – que o levasse de volta para o interior. Desejava morrer na sua pequena cidade. Ali nascera, crescera, ficara rico, ali casara e criara os filhos. Depois do que presenciara e da tristeza que sentira, a casa da capital, onde havia decidido passar seus últimos dias, já não lhe oferecia a paz esperada, nem lhe inspirava a confiança e a tranqüilidade que queria. Aos noventa anos – raros alguns momentos de turbulências – ostentava uma lucidez de gente nova. Os netos faziam silêncio e se acomodavam em círculo para ouvir suas histórias. Adorava um banho de praia e até uma cachacinha ou uma taça de vinho tinha ainda por costume. Morava com a filha mais nova, que nem tão nova era: entrara nos quarenta naquele ano. A única solteira e por esse motivo, os irmãos e as irmãs acharam que era a pessoa mais indicada para cuidar do pai. Dar-lhe apoio, acompanhá-lo em suas necessidades. Teve a melhor herança ...

OS AMORES DO CONQUISTADOR

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Não demorou muito para que se tornasse o mais procurado de todas. Só as bonitinhas. As feias e velhas ou não lhe interessavam, ou não eram aceitas. Ele parecia ter mel esparramado pelo corpo. Quem sentava, não desgrudava mais. Já no segundo mês de emprego, todas as escolhidas estavam sobre o seu controle. As novinhas podiam nem ser muito bonitas, as mais de idade precisavam ter beleza. Bem trabalhadas. Discretas e gostarem de amar. Exigia sigilo total, mas como o ser feminino gosta de vangloriar-se, divulgando suas conquistas, não demorou muito para que o pessoal ficasse sabendo. A última a ser informada – como normalmente acontece – foi a sua esposa. Ela passou a receber telefonemas e recebia também mensagens. Principalmente de Susi, que – afeita a um sadismo incontrolado – se especializara em descrever os momentos de felicidade que mantinha com o seu esposo. Márcia – a mais traquejada na arte de ser amante – para manterem-se juntos sem qualquer suspeita, propôs sociedade numa con...

O RECADO

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- Ta vendo pai, veja a confusão que você criou! Te vire, resolva. Por enquanto, oração você não merece! Era uma família muito grande. Hoje já não existem famílias com tantos filhos. Antigamente, uma coisa muito natural. Não havia televisão, e o anticoncepcional só foi inventado muitos anos depois. A igreja exercia um domínio e uma fiscalização muito grande sobre todos os seus seguidores. O casal que se atrevesse a usar pílulas (que já começavam a aparecer), para controlar o nascimento de filhos estava cometendo pecado mortal. E pecado mortal era o instrumento que assegurava um lugar direto no inferno. Lugar que todos abominavam. Vejam só: doze irmãos, quatro eram homens e oito mulheres. Diferença de ano um do outro. Sem contar os que haviam morrido. Sabiam, pelas poucas e reservadas conversas da mãe, que tinham sido três. Mas, até bem pouco tempo, numa família de imigrantes, valorizados são apenas os homens. Só eles que trabalham, só eles que conseguem a atenção dos pais. As mulher...

DOMINGO DE RAMOS

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O Domingo de Ramos era uma data especial para os jovens daquele seminário. Logo pela manhã, iam todos para a cidade. Uma caminhada de três quilômetros, do lugar onde moravam até o centro da cidade, onde se localizava a catedral. Os mais velhos - já vestidos com batinas - eram admirados pelos mais novos. Seguiam pelas ruas da cidade caminhando através das calçadas em conversas baixas e poucos risos. Pareciam respirar o silêncio do início da Semana Santa. Já era tradição participarem - na velha igreja da cidade -  do coral que interpretava músicas gregorianas com le-tras sacras em latim. Dom Carlos, o Bispo, puxava a Procissão de Ramos. Ia num caminhar lento e concentrado. Usava roupas de gala. Os seminaristas seguiam logo atrás, compenetrados. Cada um carregando o seu ramo para ser bento. Interpretavam uma letra em latim que nunca mais esqueci: “Pueri hebreorum, portant ramus olivarum.” (Meninos dos hebreus, carregando ramos de oliveira). Hoje,...

O VIGIA

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Vejo-o todos os dias, há quase quinze anos, sentado ali. Na esquina da Rua Paulo Setúbal, com outra que declino do nome. No bairro do Hauer. Devia ter uns cinquenta anos na época que o conheci, e edificavam um prédio comercial cuja construção se arrastou por vários anos. Para mim, ele era o guarda da obra. A maior parte do tempo passava sentado, observando os carros que trafegavam pela rua, bem à frente. Quando o prédio ficou pronto e alguns comércios se estabeleceram no lugar, continuou na sua antiga postura: sentado numa cadeira de madeira velha, acenando para os conhecidos que cruzavam. Com o tempo, passei a cumprimentá-lo também, porque era quase obrigatório ter que parar naquele semáforo, todas as manhãs, quando me dirigia para o trabalho. Nossas relações nunca foram além desses acenos. Certa manhã vi-o de pé. Caminhava lentamente demonstrando sentir dores. Visto nessa postura, aparentava ser mais magro. No intervalo do sinaleiro fechado, percorreu com dificuldades toda a extens...

HISTÓRIAS DE BONIFÁCIO

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Bonifácio contou-me isto. Viera de uma família pobre. O pai, sapateiro, consertava sapatos e recebia encomendas para novos. O dinheiro mal dava para o sustento dos oito filhos. Anos após anos, um atrás dos outros, todos pequenos, faziam aquela casa chorar o dia todo. Saiu de casa cedo. Parece que tinha doze anos. Primeiro tentou ser padre. Anos depois achou que não servia para isso. Foi procurar outras coisas e, por muito tempo, andou sozinho. Tinha estudo e virou professor. O salário que começou a ganhar logo no começo de março, só foi receber em outubro. Os amigos custearam suas necessidades nesse período. Quando outubro chegou acabou-se a carestia. Pagou os financiadores e ainda sobrou dinheiro para um carro. Novo não dava, bem que queria! Concordou com um fusquinha velho. Nossa, nem acreditava na aquisição! Programou uma viagem de natal para visitar seus familiares. E foi. O carrinho velho era bom demais, concluiu! Seiscentos quilômetros num dia só. Nem deu para esquentar o motor...

PESCA NA LAGOA

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Depois que o Paranazão baixava suas águas, ficavam as lagoas nas partes baixas das ilhas e em muitos lugares das margens. Iam secando e desaparecendo aos poucos. Essa situação criava um espetáculo magnífico e tétrico. Nelas se acumulavam milhares e milhares de peixes que não tinham conseguido retornar ao rio. Eram de todas as espécies e se tornavam  presas fáceis de pescadores, jacarés, capivaras, sucuris e das aves aquáticas, que em vôos rasantes, apanhavam e subiam levando seus trunfos. Os que não eram aprisionados ali, morriam lentamente com a diminuição das águas, alimento e oxigênio. Nenhum órgão de proteção fazia o resgate daqueles peixes para devolvê-los ao rio. Os que morriam produziam um insuportável cheiro de coisa que se deteriorava. Nessa situação de prisioneiros das lagoas, fadados a uma pena de morte diversificada, um dia Fermino mandou-me um recado para que fôssemos fazer uma pescaria. Seria com rede. Os peixes estavam à disposição, era só pegá-los. Fomos me...

A FOTOGRAFIA

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Ao entrar em casa, naquela tarde, chamou-lhe atenção a fotografia colocada sobre a cristaleira. Há muito tempo estava ela ali, mas nunca conheceu uma sensação igual a que sentia naquela hora. No silêncio da imagem havia histórias para lembrar. Naquele final de tarde pareceu ter tempo. Parou. Tomou o quadro nas mãos. Olhou aquela imagem demoradamente e sentiu que havia acontecido grandes transformações. Era um documento familiar. Lembrou-se da ocasião e do local. Observou-se. Mirou a esposa, o filho e a filha. Calculou: no mínimo vinte e cinco anos atrás! Ele magro, elegante, cheio de vida e forças; ela, posta numa roupa de viagem muito à vontade, exibindo mocidade e beleza. Óculos escuros, pele bronzeada. O menino com os seus dez anos, a menina não chegava a sete. Passou a recordar do momento e do local. Estavam voltando da praia e o retorno acontecia pela Estrada da Graciosa. Estrada bonita. Cheia de curvas fortes e flores pelas beiradas. Riachos que se precipitavam por en...

QUANDO CHEGOU O OUTRO

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Já no dia anterior ela havia me falado que ganhara um cãozinho. Bebê ainda - dizia ela - e nem nome tinha. Brinquei com essa minha amiga dizendo que do jeito como estava indo, ela acabaria enchendo a casa. Nunca vi uma pessoa se afinizar tanto a esses animais! Mas por ser bebê, disse-lhe que teria trabalhos. Qualquer ser nessa fase exige cuidados. E como estava sem nome ainda, sugeri alguns: Nike... Pitter... Pachola... Hoje, logo cedo, fiquei sabendo que não foi ao trabalho. Disse que não havia dormido à noite porque o cachorrinho tinha chorado o tempo todo. Problemas intestinais, vômitos, tremedeiras decorrentes das dificuldades de adaptação. Sentira, certamente, a ausência dos irmãozinhos. Eram cinco e até então viviam juntos - disse-me ela. Fiquei imaginando o quão dolorido não havia sido essa separação. Ele fora retirado do carinho da mãe, do seu leite, do convívio com os irmãos e do cheiro canino, tão necessário a eles! Com a saúde desse jeito e a parte emocional abalada, esta...

OS NOSSOS AMIGOS CÃES

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A minha amiga Íria é uma pessoa aficionada a cachorros. Mantém um “blog” de "resgate canino" e também tem suas preocupações com os gatos. Impressionam-me os cuidados que nutre para com esses animais, principalmente com os primeiros. Mas o que mais me chamou a atenção - visitando a sua página - foi a descoberta que fiz ao conhecer o lado de extrema carência que muitos animais vivem. Abandonados pelas ruas, eles perdem praticamente toda a sua capacidade de sobrevivência. São maltratados e espancados, passam frio e fome, morrem à míngua pelas esquinas na busca de proteção e afetividade. Muitos - atropelados pelo trânsito louco - agonizam pelas calçadas; outros, sem qualquer possibilidade de reação, deixam-se apanhar pelo camburão da morte. Pois o “blog” da minha amiga Íria faz o trabalho de recuperação desses “bichinhos” - como trato deles quando converso com ela. Procura arranjar-lhes uma nova casa. Encanto-me com a forma como faz as chamadas. A maneira cuidadosa como expõe ...

A PROCURA DOS ANCESTRAIS

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Conheci meu avô , mas tenho dele vagas recordações. Era um italiano, vindo de uma região que até hoje ninguém conseguiu descobrir. Chamava-se José. Magro e alto, a lembrança que tenho da sua fisionomia. Memória de um menino de cinco anos. Trabalhou até seu fim na profissão de celeiro. Tinha paixão por gemada, feita com ovo, muito açúcar e vinho, que sempre quando eu estava por perto obrigava-me a provar. Eu não gostava, mas todos, naquela época, consideravam aquilo uma vitamina que ajudava no crescimento. Era inútil dizer não. A religiosidade na família era tão grande que, todas as noites, após a janta e antes de dormir, era rezado o terço. Todos ajoelhados num compartimento da casa localizado entre a cozinha e a copa que ficavam de um lado e os quartos do outro. Utilizavam o latim como língua para rezar o pai nosso, o credo,  as ave Marias, os glórias e a salve rainha. Eu gostava dos Mistérios Gloriosos.  Seguia a ladainha, que não terminava nunca. Um dia, pela manhã, ...

ESQUECENDO O PASSADO

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Há mais de um ano tenho observado o comportamento de um grupo de mulheres, que devem estar na faixa dos setenta anos. Um pouquinho mais, um pouquinho menos. São umas quinze. Elas frequentam uma academia de ginástica e dança que existe na praça onde faço caminhadas e realizo minhas ginásticas a céu aberto. Coincidentemente, quando me encontro nos aparelhos, elas estão saindo do prédio ao lado - posto bem no meio da praça - onde executam suas atividades. Passam pelos cuidados de um profissional que lhes mede a pressão arterial, conta os batimentos cardíacos e tece rápidos comentários, criando satisfações e risos nas faces de todas. Cami nham em grupos. Conversam e riem demonstrando estarem felizes. Parecem meninas adolescentes correndo ao encontro da felicidade. Durante esse tempo todo, ative-me a observá-las e ouvi-las. Muitas histórias foram contadas naquelas saídas: a educação errada posta em prática pelas filhas e filhos, os desrespeitos das netas e netos e os erros praticados ...

PRESENTE PERFEITO

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Esse meu amigo primava pela honestidade. Fora seminarista e aprendera todos aqueles princípios da ética e da moral que os padres, tão habilmente, sempre incutiam nos que pretendiam se tornar sacerdotes. Por uma questão de falta completa de vocação, não chegou a terminar os estudos que o levariam ao sacerdócio. Mas o que aprendeu ali naquela escola de formação o tornou bom para o resto da vida. Bom até demais para uma sociedade como a nossa, que se espantava com os princípios defendidos por esse meu amigo. Apelidaram-no de conservador. Desviavam-se dele para não ouvirem suas opiniões, criticavam-no e até se riam. Pela sua retidão, tornou-se respeitado, porém. Todos sabiam que ele não seria capaz de praticar nada que viesse prejudicar as pessoas. Todos passavam por ele e o cumprimentavam respeitosamente. Mas preferiam não conversar. Os moradores do prédio sabiam que seu apartamento era o do sexto andar, porém nunca estiveram lá, nem pretendiam fazer qualquer visita. Admiravam-no pela ...