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EFEITOS MOMENTÂNEOS

À contra gosto, mas atendendo aos pedidos que a esposa sempre fazia para que cuidasse com mais esmero daquele jardim, comprei uma cortadeira de grama moderna. Dessas que já traz consigo um saco que recolhe a grama no mesmo momento que é cortada. Uma espécie de sugador. Depois do primeiro corte: - Parabéns, trabalho exemplar, disse ela achegando-se e oferecendo-me um copo de cerveja gelado. Naquele calor e sol que rachava, uma bebida naquele estado era como o néctar dos deuses! Sentei-me sobre a grama ao seu lado e bebericando ali fiquei observando e me atribuindo elogios mentais. Que aparelho fantástico inventaram! Ela então me olhava e também querendo tecer seus elogios, indagava de mim se não estava com a razão quando insistira naquela compra.  imediatamente concordei dando-lhe os parabéns pela brilhante ideia e constante insistência. Passei longos dias e mesmo à noite acendia a luz para observar a maravilha que havia ficado o jardim da nossa casa. Que aparelho ...

LÁ TAMBÉM TEM

Não pensem que tudo na Europa é bonito e maravilhoso. Veja a história: Pois no final do primeiro dia do nosso passeio por Lisboa, cansados e longe do hotel onde estávamos hospedados, resolvemos pegar um ônibus para voltar. Tínhamos acabado de conhecer a Torre de Belém, passado pelo Monumento dos Descobrimentos, observado a beleza do rio Tejo, que logo abaixo deságua no Oceano Atlântico e percorrido o interior do Mosteiro dos Jerônimos. Bem à frente desse mosteiro, tomamos o ônibus para voltar. Os portugueses chamam de elétrico, mas são semelhantes aos nossos coletivos.          Estava lotado e precisamos ficar de pé. Logo que entrei percebi alguma coisa de estranho nas atitudes de uma mulher que se encostando de maneira sensual foi me levando para um canto do elétrico. Em seguida ouvi a voz do Fausto que falava alto para um homem que estava bem à minha frente, ao lado da mulher. - Tira a mão daí! O dinheiro do meu pai não! Do meu pai não!...

DÚVIDAS

Eu ligo as lâmpadas, ela desliga; eu abro as portas e as janelas, ela corre fechá-las; eu quero que o sol entre e ilumine tudo, ela detesta pó e diz que a poluição está grande, Não sou eu que limpo! Durante trinta dias não liguei a luz, não abri as portas, nem liberei as janelas. Por que choveu muito, quase não teve sol. Nesta minha cidade nevoenta. Num final de tarde cheguei e abri a porta. Surpresa: cheiro de bolor e ar viciado. Talão de luz por debaixo da porta acusava consumo mínimo. Agora estou numa situação difícil: Não sei se "chupo cana ou se assobio", Se acendo as luzes e pago a conta, Ou me acostumo com o cheiro  e economizo.

MULHER PERFEITA

Logo pela manhã bem cedo levanta para fazer o café. Enquanto eu gasto o tempo com a higiene, ela desce rapidamente para preparar o desjejum. Não demora dez minutos e está tudo pronto. Acomodo-me à mesa para a primeira refeição, ela já está cuidando de outras coisas. A cama vai sendo arrumada. A janela do quarto aberta traz sol e vento para dentro, eliminando o ranço da noite.          Entende que sempre tenho um dia inteiro pela frente. Começo de um dia, muitas coisas para serem feitas.  Já fora mulher a noite toda: abraços, beijos, soluços, mimos, sexo demorado. Compromissos simples, mas que somente ela sabia torná-los importantes. Não se sentia pequena pelos mais humildes, nem se engrandecia quando executava atividades sofisticadas. Ideias machistas e complicadas essas minhas! Ela não se alterava com meus olhares, nem mudava de comportamento com os elogios. - Tomou teus remédios? - Você não viu? - Esta tua roupa não está bo...

RELATÓRIO DE UMA PUTA

 Ela envelheceu. Ficaram para trás todos aqueles arroubos da juventude. Teria evoluído ou regredido? Quem a conheceu jovem e a vê agora, espanta-se com a transformação!  Ela queria baile. Queria a noite. Amava o cigarro e a bebida. Nunca dispensou drogas.  Ignorava o perigo. Entregava-se aos prazeres do corpo sem escrúpulos. Amava a Saldanha Marinho, a Cruz Machado e a Tiradentes. Mulher bonita, que te fez o tempo!          Cinquenta anos pesam, moça! O tempo cobra! Impõe marcas acentuadas aos que o menosprezam! Ele não fala nada, observa-te, moça, com piedade como a dizer: você quis, você decidiu! É a vingança silenciosa, indiferente, sem volta!        As Saldanhas Marinhos, as Cruzes Machados e as Tiradentes da vida estão ocupadas por outras que fazem tudo o que você já fez. Que não sabem nada - como você não sabia - da impossibilidade de se corrigir ou de se voltar atrás.   ...

DESCONHECIDOS

Naquele momento, chovia a cântaros. O dia começava a amanhecer. Uma senhora, apoiada num dos pórticos do cemitério da Água Verde, ouvia histórias que eram contadas por uma pessoa que não conhecia nem nunca havia visto antes.          Numa das capelas mortuárias, velava-se um morador do prédio onde morava. Sem faixas, nem coroas. Conhecia-o de cumprimentos nos corredores ou pelas reuniões do condomínio. Estava ali, mais por causa do social, movida por um sentimento de solidariedade. Havia passado a noite, porque o morto não tinha nem parentes para velá-lo.          Após longas horas de conversas - numa noite chuvosa e gelada que não queria passar - aquela senhora contadora de histórias com quem permaneceu à noite, pareceu-lhe uma velha conhecida.          Uma das histórias enterneceu-a, enquanto, compadecida, observava o defunto cada vez mais pálido, em mei...

RECEITA

Se um dia tiveres que esquecer,  não siga por caminhos,  ou trilhas, nem por atalhos.  Busque a areia da praia... O mar, feito amigo e cúmplice,  apaga todos os teus rastos!