V endo-te ali prostrado a não querer mais nada, a não sentir fome, nem a idealizar sonhos, a não se mexer para fugir da goteira que cai, a ignorar os transeuntes que não o encomodam, a implorar que não o deixem sozinho, a solicitar que apaguem a luz, a não sentir mais a falta dos passarinhos, a divagar lembrando-se do passado, sem reservar mais tempo para pensar no futuro. V endo-o ali tão abatido e descorado, arfando com cuidado, sem barulho, mirrado, querendo iludir os outros, dizendo que está bem. V endo-te no presente, lembrando do passado, do homem que fostes e o homem que és, dentro de mim uma tristeza me sufoca, ante a evidência da passagem. P arece estares descendo a serra, a percorrer os últimos caminhos, a divisar o vale onde planejas associar-se à terra. C ansastes das lutas? Evitas as batalhas que te manteriam a vida? Cada vez parece-te mais presente a sensação inquestionável de que perdeste a guerra. (23/10/2009)