AMOR EM TRÊS DIMENSÕES

Aos 17 anos, depois de rápidos ensaios amorosos, Débora decidiu dar um basta aos namoricos que vinha mantendo com Eduardo. Garoto da sua idade e mesma escola. Mocinha adolescente do primeiro ano da Escola Normal, ficara encantada com o professor, recém chegado, vindo da Capital. Muito jovem também ele - não passava dos vinte e dois anos - vinha despertando sentimentos apaixonados entre as alunas. Depois dos primeiros encontros, três anos se passaram até o casamento. Na véspera do evento ,- depois de haver passado todo esse período remoendo seu amor por Débora ,- Eduardo achegou-se dela e propôs que fugissem os dois. Sonhava construir uma vida juntos. Débora não aceitou e também nunca contou a proposta a ninguém. Atrevido esse Eduardo! O tempo passou...Rute -, sua irmã mais velha e Sônia, uma das últimas, na grande família de sete irmãs e três irmãos -, foram encontrando seus pares. A primeira havia casado um ano antes e fora morar na Capital; Sônia, após algumas aventuras amorosas que resultaram numa filha e posterior separação, voltou a viver com os pais. O professor e Débora tiveram filhos e o segredo nunca fora revelado ao marido. Aconteceu de maneira inusitada, quarenta anos depois. Veja que história interessante: Eduardo, logo em seguida -, talvez desiludido -, mudou-se com a família para a capital. Formou-se, fez uma larga e bem sucedida carreira profissional. Casou, teve filhos e aos sessenta anos foi surpreendido com a morte da esposa. Rute, a irmã mais velha de Débora, pouco tempo antes, também havia perdido o seu marido. Sônia continuou morando no interior. Nunca mais amou. Dedicou-se a cuidar da mãe já bem idosa e educar a filha que, por aquela época, entrava na adolescência. Débora seguiu seus passos de mulher casada, envolvida em atividades constantes, sempre dedicada ao marido, e, especialmente, aos filhos. Um dia, quis o destino, Eduardo soube que Rute morava na mesma cidade. Conversou sobre ela com amigas de ambos, de quem conseguiu o telefone. Numa noite de sábado, ligou. Rute, inicialmente amedrontada, sentiu dificuldades para entabular conversações. Foi se ambientando com o passar do tempo e a conversa prolongou-se por mais de hora. Rememoraram os tempos de cidade pequena e passaram a limpo os principais acontecimentos daqueles quarenta anos. Eduardo quis saber de Débora. Rute contou que continuava casada e viviam numa cidade distante, apenas os dois, aposentados e curtindo a vida. Tinha filhos que haviam seguido seus destinos. Quis saber das irmãs e Rute foi desenrolando a história de todas elas. Fez destaque para a vida de Sônia, solteirona e ainda muito bonita. As conversas telefônicas se tornaram periódicas e, certo dia, Eduardo foi visitar Rute. Descompromissados ambos, a despreocupação foi desaparecendo e a aproximação, cada vez maior, lhes proporcionava tranquilidade e bem estar. Rute passou noites acordadas degustando os prazeres daqueles momentos, pondo a funcionar sua fértil imaginação. Apesar da idade, a chama do desejo e do amor pareceu acender-se com um ardor nunca antes sentido. Imaginava uma vida junto com Eduardo. Agora, já maduros e experientes, poderiam saborear os momentos prazerosos com muito mais intensidade. Quando os sonhos se encaminhavam para a realidade, Rute ficou sabendo que Eduardo estava tendo umas conversas com sua irmã Sônia. Procurou saber da verdade e depois de conhecê-la, passava noites e noites acordadas desfazendo tudo aquilo que havia projetado. Angustiava-se. Amaldiçoava o mundo. Condenava Eduardo e, principalmente, execrava a irmã. Rompeu qualquer contato com ela e começou uma vida reclusa, cheia de desgosto, arquitetando vingança. Enquanto a irmã vivia rodeada de aborrecimentos, passando noites acordadas, Sônia apurava seu relacionamento com Eduardo. Uma história que começara sem qualquer pretensão e por puro acaso, estava agora se concretizando. Rute não fez mais nenhum contato com a irmã. Cortou o relacionamento com Eduardo. Aproximou-se de Débora com quem, achou, poderia contar no extravasamento de suas aflições.Sentia-se traída por Sônia. Mostrava-se revoltada porque viu ruir os castelos de sonhos e felicidades que idealizara. Perdera para a juventude, discrição, beleza e simplicidade. O casamento de Eduardo e Sônia foi marcado logo em seguida. Rute não esteve presente. Débora, convidada, juntamente com o marido, foram as testemunhas do enlace. O segredo de quarenta anos não saiu da sua boca, foi relatado pelos acontecimentos. Hoje, Sônia vive feliz com Eduardo. Filhos e sexo de adolescentes a idade não lhes permite mais. Levam uma vida repleta de divertimentos. Rute amarga a solidão e a falta de relacionamento. Queria aquele que poderia ter sido o marido de Débora e acabou perdendo-o para a irmã mais nova, mais elegante, discreta e despretensiosa. O mundo nos reserva cada coisa!

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