4 de set de 2016

AMOR EM TRÊS DIMENSÕES

Aos 17 anos, depois de rápidos ensaios amorosos, Débora decidiu dar um basta aos namoricos que vinha mantendo com Eduardo. Garoto da sua idade e mesma escola. Mocinha adolescente do primeiro ano da Escola Normal, ficara encantada com o professor, recém chegado, vindo da Capital. Muito jovem também ele - não passava dos vinte e dois anos - vinha despertando sentimentos apaixonados entre as alunas. Depois dos primeiros encontros, três anos se passaram até o casamento. Na véspera do evento ,- depois de haver passado todo esse período remoendo seu amor por Débora ,- Eduardo achegou-se dela e propôs que fugissem os dois. Sonhava construir uma vida juntos. Débora não aceitou e também nunca contou a proposta a ninguém. Atrevido esse Eduardo! O tempo passou...Rute -, sua irmã mais velha e Sônia, uma das últimas, na grande família de sete irmãs e três irmãos -, foram encontrando seus pares. A primeira havia casado um ano antes e fora morar na Capital; Sônia, após algumas aventuras amorosas que resultaram numa filha e posterior separação, voltou a viver com os pais. O professor e Débora tiveram filhos e o segredo nunca fora revelado ao marido. Aconteceu de maneira inusitada, quarenta anos depois. Veja que história interessante: Eduardo, logo em seguida -, talvez desiludido -, mudou-se com a família para a capital. Formou-se, fez uma larga e bem sucedida carreira profissional. Casou, teve filhos e aos sessenta anos foi surpreendido com a morte da esposa. Rute, a irmã mais velha de Débora, pouco tempo antes, também havia perdido o seu marido. Sônia continuou morando no interior. Nunca mais amou. Dedicou-se a cuidar da mãe já bem idosa e educar a filha que, por aquela época, entrava na adolescência. Débora seguiu seus passos de mulher casada, envolvida em atividades constantes, sempre dedicada ao marido, e, especialmente, aos filhos. Um dia, quis o destino, Eduardo soube que Rute morava na mesma cidade. Conversou sobre ela com amigas de ambos, de quem conseguiu o telefone. Numa noite de sábado, ligou. Rute, inicialmente amedrontada, sentiu dificuldades para entabular conversações. Foi se ambientando com o passar do tempo e a conversa prolongou-se por mais de hora. Rememoraram os tempos de cidade pequena e passaram a limpo os principais acontecimentos daqueles quarenta anos. Eduardo quis saber de Débora. Rute contou que continuava casada e viviam numa cidade distante, apenas os dois, aposentados e curtindo a vida. Tinha filhos que haviam seguido seus destinos. Quis saber das irmãs e Rute foi desenrolando a história de todas elas. Fez destaque para a vida de Sônia, solteirona e ainda muito bonita. As conversas telefônicas se tornaram periódicas e, certo dia, Eduardo foi visitar Rute. Descompromissados ambos, a despreocupação foi desaparecendo e a aproximação, cada vez maior, lhes proporcionava tranquilidade e bem estar. Rute passou noites acordadas degustando os prazeres daqueles momentos, pondo a funcionar sua fértil imaginação. Apesar da idade, a chama do desejo e do amor pareceu acender-se com um ardor nunca antes sentido. Imaginava uma vida junto com Eduardo. Agora, já maduros e experientes, poderiam saborear os momentos prazerosos com muito mais intensidade. Quando os sonhos se encaminhavam para a realidade, Rute ficou sabendo que Eduardo estava tendo umas conversas com sua irmã Sônia. Procurou saber da verdade e depois de conhecê-la, passava noites e noites acordadas desfazendo tudo aquilo que havia projetado. Angustiava-se. Amaldiçoava o mundo. Condenava Eduardo e, principalmente, execrava a irmã. Rompeu qualquer contato com ela e começou uma vida reclusa, cheia de desgosto, arquitetando vingança. Enquanto a irmã vivia rodeada de aborrecimentos, passando noites acordadas, Sônia apurava seu relacionamento com Eduardo. Uma história que começara sem qualquer pretensão e por puro acaso, estava agora se concretizando. Rute não fez mais nenhum contato com a irmã. Cortou o relacionamento com Eduardo. Aproximou-se de Débora com quem, achou, poderia contar no extravasamento de suas aflições.Sentia-se traída por Sônia. Mostrava-se revoltada porque viu ruir os castelos de sonhos e felicidades que idealizara. Perdera para a juventude, discrição, beleza e simplicidade. O casamento de Eduardo e Sônia foi marcado logo em seguida. Rute não esteve presente. Débora, convidada, juntamente com o marido, foram as testemunhas do enlace. O segredo de quarenta anos não saiu da sua boca, foi relatado pelos acontecimentos. Hoje, Sônia vive feliz com Eduardo. Filhos e sexo de adolescentes a idade não lhes permite mais. Levam uma vida repleta de divertimentos. Rute amarga a solidão e a falta de relacionamento. Queria aquele que poderia ter sido o marido de Débora e acabou perdendo-o para a irmã mais nova, mais elegante, discreta e despretensiosa. O mundo nos reserva cada coisa!

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