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ESTRANHO

Observo uma fotografia dos anos vinte, e perplexo quase não me reconheço mais... Muitos traços alterados pelo andar dos dias,  porque o tempo vai desatualizando as fotografias, instruindo, mas  consumindo as pessoas,  feitas cúmplices do passado, cheias de saudade e melancolia.  Ah se me fosse facultado ter,  a sabedoria de hoje,  naqueles tempos idos! 

LAÇOS

Aos treze anos saiu de casa, abandonou a escola, fez um telefonema para o namoradinho e partiu para a capital. Fosse o que Deus quisesse!  Tinha beleza, cabeça desmiolada e a decisão de ser livre! Não queria mais saber dos conselhos da mãe, das regras que o pai lhe queria impor, das chatices dos professores e das coisas atrasadas de uma cidade pequena!  Ele havia partido algum tempo antes, mas continuava desempregado. As informações que tivera de emprego fácil não refletiam a realidade, principalmente para uma pessoa sem qualquer formação, nem estudo.  No outro dia cedo, estava na rodoviária aguardando a namoradinha. Casa não tinha para morar, mas ela concordou em ficar numa pensão de rapazes, onde ele se arrumava. Os outros entenderiam e respeitariam o casal recém-formado.   Deram de procurar emprego. Saíam bem cedo e só voltavam no final da tarde. Ela quase arrumou um de doméstica, mas não quiseram contratá-la, quando ficaram sabendo que tinha o vício do cigarro. Ele nem s

PROTÓTIPO

Já há várias noites, padre Bonifácio vem tendo insônias. Nunca havia sentido isso em sua vida tranquila de capelão, numa igrejinha dos arrabaldes de uma cidade extremamente religiosa.   Elas apareceram logo após um sonho estranho. Sempre o mesmo sonho, que foi se repetindo todas as noites e o martirizando. Tudo isso, só depois que pensou na construção de uma igreja nova. Há muitos anos vem idealizando uma casa de Deus moderna, acessível a todos os tipos de fiéis, uma construção onde se sintam bem, indistintamente, ricos e pobres. Percorreu, nos seus muitos  sonhos, todas as construções antigas, igrejas imponentes que têm resistido ao tempo e também igrejas atuais, menos atraentes e pobres. Assim foi analisando e criando  a sua igreja dos sonhos.  As noites foram se sucedendo acompanhadas sempe das mesmas perturbações e quando já parecia debilitado e sonambulo, se refletindo nas atividades diurnas, surgiu-lhe,  finalmente, o protótipo do que tanto procurava. Uma construção sem torr

DIANTE DA FOTOGRAFIA

Atenho-me a observar-te daqui distante e num desejo incontrolado,  trago-a para perto de mim... Não havia sentido antes tanta beleza,  nem tamanha sensualidade, naquela tua outra idade.  Olhar penetrante,  sorriso tentador que me seduz... Ah, estes teus lábios  que tanto desejei e nunca os tive Deixam-me triste e arrependido:  Por que deixei passar sem tê-los provado? Eu queria sentir os teus cabelos,  Na doçura sensual que acaricia! Enlaçar-me pelo teu corpo, sussurar ao teu ouvido Palavras descontroladas,  feitas gemidos, na loucura do descontrole  sentir tua carne. Beijá-la, acariciá-la, fundir-me.  Menina moça de antigamente,  Mulher madura do presente,  tão decidida, Que tanto sabe e o que quer! Não vejo como deixar que passes novamente,  Estamos nos querendo e precisamos,  Matar esses loucos desejos!  Alheios às consequências, Porque a paixão incontrolada nunca teve preço! 

A INICIAÇÃO

Ele resolveu não ser mais padre. Um dia, meio desconfiado, achegou-se do superior do colégio onde se preparava e comunicou-lhe a decisão. Não houve qualquer contestação, mas sabia que os pais ficariam sentidos, principalmente a mãe que já sonhava com o filho rezando missas.   Aos vinte anos considerava-se dono de si. Passara muitas noites sem dormir martelando a idéia e, finalmente, decidira mudar os rumos de sua vida.  Nessa idade ainda era virgem de mulher. Estava disposto a enfrentar aquele mundo diferente do qual sempre lhe incutiram medo. Já não conseguiam convencê-lo que as coisas lá fora eram tão ruins quanto pintavam. Nos últimos anos, muitos colegas seus haviam abandonado aquele lugar. Chegara a sua vez. Concluíra que não seria um bom padre. Aquela blindagem que recebera até essa idade estava quebrada. Enfrentaria um mundo cruel. Mundo do demônio, diziam! Comeu o pão que o diabo amassou. Não possuía assuntos para conversar. Tinha vergonha de todos. Arrepiavam-lhe os olh

SONHO MALUCO

O homem acordara lá pelas quatro da madrugada, muito aflito. Pescoço a escorrer lhe largo suor e os cabelos completamente molhados. Em meio à escuridão do quarto, sentiu que também o colchão onde dormira encontrava-se molhado. Pode vislumbrar a silhueta  da esposa sentada no lado oposto da cama,  que lhe fazia carinhos e o convidava para que  fosse sentar  ao seu lado. Dissera-lhe estar com insônia  e se preparava para levantar. Havia tido um sonho também , mas não conseguia lembrar-se dele.  O homem sentiu um leve estremecimento e disse que também havia sonhado, lembrando-se  de todos os detalhes.  - Gostaria que me contasse -, falou ela -, aparentemente curiosa. Enquanto as luzes iam sendo acesas e os travesseiros  e lençóis  amontoados pela situação  lamentável que se encontravam, ele sentou-se ao lado da mulher e  começou a relatar seu sonho.  Eu estava  numa rua estreita e antiga, com pedras de paralelepípedos irregulares, cheia de buracos que dificultavam o trânsito

O ESTARRECIMENTO POPULAR

A Mírian Leitão, comentando, no Jornal Nacional de hoje, 22/06, a situação política brasileira, principalmente as decisões que estão por sair nos Supremos Tribunais, proferiu uma frase no mínimo preocupante: “Não há uma solução boa.” Isto significa dizer que qualquer uma que for tomada, não será capaz de resolver os problemas existentes.  A que situação chegamos! A população, descrédula, mas observadora, parece conhecedora da situação e um fato que presenciei na saída de um Posto de Saúde, aqui no norte da ilha de Santa Catarina, mostra o quanto ela se encontra ligada.  Como todos sabem, há tempos já vem ocorrendo a falta de remédios populares e, agora, mais recente, tem faltado também vacina. Pois um senhor, pelas suas características, muito pobre, quando saía de um desses Postos sem conseguir os remédios que necessitava, comentou com uma pessoa que se encontrava a seu lado: “Agora os nossos políticos, porque não podem mais roubar dinheiro grosso das empreiteiras - estão pegando