LAÇOS

Aos treze anos saiu de casa, abandonou a escola, fez um telefonema para o namoradinho e partiu para a capital. Fosse o que Deus quisesse! 
Tinha beleza, cabeça desmiolada e a decisão de ser livre! Não queria mais saber dos conselhos da mãe, das regras que o pai lhe queria impor, das chatices dos professores e das coisas atrasadas de uma cidade pequena! 
Ele havia partido algum tempo antes, mas continuava desempregado. As informações que tivera de emprego fácil não refletiam a realidade, principalmente para uma pessoa sem qualquer formação, nem estudo. 
No outro dia cedo, estava na rodoviária aguardando a namoradinha. Casa não tinha para morar, mas ela concordou em ficar numa pensão de rapazes, onde ele se arrumava. Os outros entenderiam e respeitariam o casal recém-formado.  
Deram de procurar emprego. Saíam bem cedo e só voltavam no final da tarde. Ela quase arrumou um de doméstica, mas não quiseram contratá-la, quando ficaram sabendo que tinha o vício do cigarro. Ele nem sabia mais quantas buscas de serviço fizera. Lembrava-se da burrice cometida no seu primeiro trabalho como ajudante de pedreiro: tomara umas a mais e brigara com um companheiro de enxada. O dinheiro da indenização estava acabando.
 Ficara sabendo que os companheiros de pensão se drogavam e pensou curioso, experimentar aquilo. Parecia tão normal e até interessante vê-los alegres!
Tinham se passado dois meses. Ela emagrecera. Andou pegando umas gripes fortes por conta do clima frio da capital e sentia coisas estranhas pelo corpo. Passou a levantar cedo, para não enfrentar as longas filas do posto de saúde. Desistiu de procurar emprego quando uma senhora -, no momento que acertava os papéis de sua contratação -, lhe pedira que apresentasse o teste de não gravidez. 
Um dia ela o achou muito estranho. Deitado no colchão olhava o teto onde se concentravam infindáveis teias de aranha.  Não quis manter relações sexuais, havia bebido muito e parecia descontrolado. Bem diferente do seu comportamento habitual. Buscou saber a razão daquele seu estado. Acabou descobrindo que os amigos de pensão lhe haviam dado um “baseado”.  Não tinha nada de errado que experimentasse, pensava. 
Daquele dia em diante nunca mais foi o mesmo. Ela até lhe contara que estava esperando um filho, mas ele, sem alegrar-se, duvidou, amarrou semblante, emudeceu e não disse nada. Punha-se sempre naquela posição e ficava longo tempo observando o paciente trabalho das aranhas. 
Nasceu uma menina lindinha, quando viviam de fazer bicos. Bateu-lhe uma saudade grande da antiga casa paterna. O orgulho foi maior: ninguém deveria saber que estavam naquela situação.  Ela precisava manter segredo de que era mãe aos quatorze anos. Que pensariam suas irmãs!       
E se soubessem que ele havia se transformado num viciado? Que brigavam porque ela não queria experimentar a droga? A coisa ficaria feia! Melhor continuar assim: sem conhecimento daquela união, sem dar endereço, nem telefone. 
Depois veio a Rita seguida do Cristiano. A primeira chamava-se Antônia, nome da avó, batizada com esse nome quando ainda ela tinha consideração pela mãe.
Ela chorou quando parou para pensar: três criaturas, frutos dela! Desesperou-se assim que soube da notícia: ele havia sido reconhecido no Instituto Médico Legal. Mais tarde ficara sabendo que a coisa é assim mesmo: quem não paga a droga que consome, morre.
Aos vinte, finalmente estava empregada. As crianças passavam o dia na creche. Ela aproveitando os momentos de folga, reiniciara os estudos interrompidos. Insistência dos superiores.  
Não lhe sumira a beleza! Apenas alguns resquícios do sofrimento passado, que se perdiam nos sorrisos dela.   Estava uma mulher! Arrumou um namorado. Um policial lá com os seus trinta e cinco, que estava se desentendendo com a família.  Disse que não suportava mulher e filhos. Passou a cortejá-la. Deu-lhe muitos presentes. Levava-a passear de moto; mais tarde, de carro. Não a quis trabalhando no quartel onde sentava praça e nem demorou muito para que arranjasse a transferência dela para outro órgão público. 
Marcou um jantar no Madalosso, porque disse que tinha assuntos sérios para conversar. Ela empetecou-se com roupas que emprestou de amigas. Perfumou-se. Arranjou um local para deixar as crianças e embarcou no carro esparramando felicidade, mas curiosa.
Meu amor, tenho uma proposta a te fazer – começou ele. 
Estou curiosa, pode dizer – atreveu-se, tímida e ansiosa, enquanto se assustava com a grandiosidade daquele restaurante.  
Adoro você, farei tudo por você, tenho a certeza de que se ficarmos juntos seremos muito felizes, mas para completar nossa felicidade - principalmente a minha - vou te fazer uma proposta – esclareceu ele.
Me tire dessa angústia, deixe de ser dramático – falou ela já impaciente. 
Você promete que aceitará minha proposta? Promete?
Gosto também muito de você, mas preciso que me fales o que tens a dizer – disse ela tomando-lhe das mãos e depositando sua cabeça no ombro dele. 
O policial criou coragem, afastou-a com cuidado acariciando lhe os longos cabelos. Ela estava bonita e curiosa. Olhou-a fixamente nos olhos e disse:
Entregue teus filhos à tua mãe e vamos viver os dois, somente nós! Construiremos um lar cheio de felicidades, prometo fazer-te rainha!
Ela ficou paralisada! Empalideceu. Interrompeu a janta. Levantou-se da mesa. Olhou-o com menosprezo e dirigindo-se à saída:
Prefiro meus filhos! Eles dão-me trabalho, mas me proporcionam uma felicidade permanente!

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