A INICIAÇÃO

Ele resolveu não ser mais padre. Um dia, meio desconfiado, achegou-se do superior do colégio onde se preparava e comunicou-lhe a decisão. Não houve qualquer contestação, mas sabia que os pais ficariam sentidos, principalmente a mãe que já sonhava com o filho rezando missas.  
Aos vinte anos considerava-se dono de si. Passara muitas noites sem dormir martelando a idéia e, finalmente, decidira mudar os rumos de sua vida. 
Nessa idade ainda era virgem de mulher. Estava disposto a enfrentar aquele mundo diferente do qual sempre lhe incutiram medo. Já não conseguiam convencê-lo que as coisas lá fora eram tão ruins quanto pintavam. Nos últimos anos, muitos colegas seus haviam abandonado aquele lugar. Chegara a sua vez. Concluíra que não seria um bom padre. Aquela blindagem que recebera até essa idade estava quebrada. Enfrentaria um mundo cruel. Mundo do demônio, diziam!
Comeu o pão que o diabo amassou. Não possuía assuntos para conversar. Tinha vergonha de todos. Arrepiavam-lhe os olhares das mulheres. Não tinha emprego, nem sabia como encontrá-lo. Sentia-se um peixe fora da água. Angustiou-se. Chegou a propor retorno. Não lhe permitiram arrependimento.
Passou um tempão solto no mundo. Sem rumo. Sem eira nem beira. Sem nada. Recluso de um quarto de pensão, que nem tinha dinheiro para pagar. Cidade grande que não partilhava dos seus problemas. “Que vida essa sua! Que asneira fizera! Lá, possuía tudo: comida, cama, conselhos, estudo, conforto, horário para descanso, tempo para o lazer, mão amiga a lhe indicar o caminho. Tinha até jogo de futebol de que tanto gostava”. 
Um dia descobriu antigos companheiros compartilhando um velho apartamento no centro da capital. “Que maravilha! O André, o Roni, o Fabrício e o Rui, todos ali”. Estranharam as maneiras dele: perdido, triste, desligado, mas que mostrou alegria com o reencontro. Em pouco tempo ficaram sabendo do drama que ele enfrentava. Apiedaram-se. Decidiram ajudá-lo. 
Na empresa onde o Fabrício trabalhava estavam contratando funcionários. Recebeu emprego. Ganharia pouco naquela atividade de manutenção de estoques nas prateleiras de supermercado, mas resolveria o seu problema presente. 
Arranjaram-lhe um lugarzinho num canto do apartamento, onde passou a morar. Dormia num velho colchão de solteiro, posto no piso frio, procedimento que lhe renderia um futuro reumatismo. Iriam juntos ao trabalho. 
Quinze dias depois – já com todas as informações adquiridas – souberam da virgindade dele. Aquilo não podia ser.  Roni, o mais afeito aos tratos femininos, resolveu acabar com aquela situação. Era amigo e assíduo freqüentador das praças onde sempre arranjava mocinhas que concordavam com satisfazer seus apetites sexuais lá pela madrugada, quando os clientes sempre sumiam. Susi aceitou a proposta que lhe fizera Roni: servir a todos os habitantes daquele apartamento. Pensava dar moral e coragem ao estreante. Ele seria o quinto. Nenhum dos quatro discordou, ele não queria. Foi tomado de um sentimento de culpa, remorso, medo do pecado. Lembrou-se do antigo internato, da pureza que se pregava lá. Dos princípios de castidade a serem mantidos antes do casamento. Não, ele não poderia concordar com aquela situação! Queria e não queria, mas os amigos estavam a lhe exigir. Aquilo tinha se tornado uma rotina entre eles. Era normal aparecerem as Susis da vida e a manutenção da fila com anuência de uma pobre profissional do sexo que, desprovida de qualquer escrúpulo, na milenar sequência da prostituição, alimentava o desejo daqueles jovens, com a liberação de míseros centavos.
Satisfez-se Roni, seguiu Fabrício, veio André e Rui abriu caminho para o iniciante. Seria a primeira vez. Isso lhe provocava vertigens, confundia sua cabeça. Nunca vira uma mulher despida. E Susi estava lá a esperá-lo, quando Rui empurrou-o de leve para o quarto, fechando a porta e desejando-lhe sucesso. 
Não a imaginava daquele jeito. Jovem, mas macilenta, magra e quase feia. Estava deitada e nua. 
Dele coraram-se as faces. Rodou-lhe a cabeça. Faltou-lhe a voz. Pisava em falso, acometeu-lhe uma tremedeira incontida. Deviam ao menos ter desligado a luz. Ela o aguardava sem falar nada. Parecia cansada, mas paciente e numa naturalidade aterradora. 
Ele ouvira tantas vezes contarem coisas, absorvera os deleites das conversas, relera muitas passagens famosas, mas uma coisa igual nunca havia presenciado, nem imaginado. Aquilo não era normal, aquilo não oferecia prazer. 
Num supremo gesto, tentou aproximar-se. Ali estava a oportunidade que tanto esperara e não poderia decepcionar-se nem aos companheiros. Susi não se mexia, nem um sorriso sequer. Nenhum gesto a incentivá-lo.  Só aguardava, mas ele não ia. 
Era um frustrado quando abriu a porta e, silenciosamente, saiu para a rua. Estava convencido de que se dera mal nessa sua iniciação. 
Os amigos lhe ofereceram um objeto frio e profissional para lhe saciar aquele desejo fantasiado e há tanto tempo idealizado como a suprema satisfação. A virgindade continuou a lhe atormentar o pensamento porque aquela estátua não lhe proporcionou o surgimento de qualquer atitude que lhe incendiasse o cupido. 
   

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