LIÇÃO


Ao longo da praia do Campeche, logo cedo, os pescadores estão presentes na busca de pequenos peixes que, quando aprisionados, são colocados numa espécie de embornal preso às costas.
São homens calejados, queimados pelo sol, que conhecem as águas e o local dos peixes. Jogam a tarrafa com uma facilidade impressionante. Ela cai sempre aberta numa circunferência de uns cinco metros. Não parecem muito sociais. Entregam-se ao trabalho de pegar peixes e ignoram quem passa.

Dia desses passei rente a um deles e arrisquei:
- Já saiu a misturinha?
Não obtive resposta. Continuou no seu trabalho de joga tarrafa, puxa tarrafa, pacientemente, quase sempre sem nada. Aquele seu silêncio intrigou-me. Não estava a fim de conversar com estranho, deduzi. A conversa poderia espantar os peixes, talvez.

Ontem, em minha costumeira caminhada, aproximei-me de outro pescador que fazia o mesmo trabalho. Falei:
- Os peixes estão bonzinhos hoje?
- Nada, rapaz, nada. O dia não é para o pescador. A água está muito clara e isso dificulta a pesca. Vou dar mais uma teimadinha e se não der, parto embora.

Na continuidade da minha caminhada lembrei-me do primeiro pescador que não quis conversa e fiz uma comparação com este com quem acabara de conversar.

O culpado tinha sido eu, conclui. Na minha primeira abordagem feri o ego daquele pescador. Dei a entender que estava ele ali a mendigar comida. Precisando pegar um peixinho para sobreviver.

Com o segundo eu fui cordial. Abordei-o sem ferir-lhe a personalidade e ele conversou animadamente.

Há muita coisa ainda para aprender, Mário. 

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