PINTOR DE PAREDES

Começou no trigésimo andar e foi descendo,
tão grande a parede e tão distante a grama verde!
Menosprezando o perigo.

Um galão de tinta azul,
um rolo que esfregava no cimento,
injetando-lhe tonalidade nova.
O banquinho, único conforto,
no qual sentava parecendo um alto funcionário
que transmitia vida àquele muro bem a sua frente.
A corda presa lá em cima, controlada por uma roldana,
roçava seu peito se afastando ou se aproximando,
regulada pelo vento.

Fez amizades rápidas com os moradores dos andares,
quando através das janelas,
passava descendo rumo ao chão.
Só assim o olhariam.
Sorrisos que não floresceram,
palavras que se perderam!
Local estranho de se conhecerem!

E foram dias nessa rotina,
no sobe e desce.
E sempre mais descendo,
olhava para cima e já não via
a beleza acabada do último andar.

Quando depositou seus pés na grama verde,
emitiu um suspiro,
agradeceu seus companheiros de trabalho,
num gesto inteiramente mudo:
um banquinho, uma corda e um rolo que rolou pelas paredes,

Num agradecimento silencioso,
sentiu que o trabalho estava findo.
A obra brilhava no sol da tarde
e os utensílios recolhidos
estavam prontos para mais um comprimisso.

Às alturas retornaria no outro dia.
Era preciso continuar embelezando a cidade,
sem lembrar que necessitava ganhar o pão.

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