DOMINGO DE RAMOS

O Domingo de Ramos era uma data especial para os jovens daquele seminário.

Logo pela manhã, iam todos para a cidade. Uma caminhada de três quilômetros, do lugar onde moravam até o centro da cidade, onde se localizava a catedral. Os mais velhos - já vestidos com batinas - eram admirados pelos mais novos. Seguiam pelas ruas da cidade caminhando através das calçadas em conversas baixas e poucos risos. Pareciam respirar o silêncio do início da Semana Santa.

Já era tradição participarem - na velha igreja da cidade -  do coral que interpretava músicas gregorianas com le-tras sacras em latim.

Dom Carlos, o Bispo, puxava a Procissão de Ramos. Ia num caminhar lento e concentrado. Usava roupas de gala. Os seminaristas seguiam logo atrás, compenetrados. Cada um carregando o seu ramo para ser bento.

Interpretavam uma letra em latim que nunca mais esqueci: “Pueri hebreorum, portant ramus olivarum.” (Meninos dos hebreus, carregando ramos de oliveira). Hoje, recordando daquelas cenas, emociono-me.

Quando o bispo chegava ao altar, um ajudante tirava-lhe a mitra, outro se ocupava do ostensório e um terceiro trazia-lhe o báculo. O seminarista encarregado do turíbulo aspergia-o com incenso, cuja fumaça perfumada inundava a catedral toda.

Dom Carlos sentava-se no seu trono, posto num local mais elevado e dali fazia o seu sermão. Era tão velho que já não conseguia manter-se em pé.

A igreja, toda tomada pelos fiéis, mantinha-se num silêncio impressionante. Havia um respeito compenetrado. As palavras ditas em tom muito baixo eram ouvidas por todos.

Dom Carlos começava seu sermão falando de Jesus entrando em Jerusalém montado num burrinho. Destacava a recepção que o Filho de Deus tivera, feita pelos hebreus que balançavam ramos de oliveira.

Ninguém imaginava que na sexta-feira seguinte esse mesmo Jesus recebido triunfalmente seria injuriado, maltratado e finalmente crucificado e morto.

O que me sensibiliza até hoje - lembrando daquele tempo -  era o respeito existente naqueles rituais.
A fé com que as rezas e os cantos eram recitados.
E aqueles gracejos das mocinhas da cidade que postas nas portas ou sacadas de suas casas, dirigiam palavras aos jovens seminaristas chamando-os de "lindos" e pedindo que desistissem de serem padres.

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