A DECEPÇÃO DE BONIFÁCIO


Bonifácio - você leitor - , já o conhece de outras histórias. Já contei várias. Pois além de ser meu amigo de longo tempo, sempre nos damos bem. 
É uma daquelas criaturas que todos gostariam tê-lo por perto. Não enche o saco, não atormenta, não pede dinheiro emprestado e muito menos empresta. Inútil pedir. Todas as vezes que precisei para me livrar dos apuros, sempre se justificava repetindo a frase que me tornou familiar: “Se queres perder um amigo, empresta-lhe dinheiro.”

Pois hoje encontrei Bonifácio de cara fechada. Logo cedo, azedo que só! Pensei em não fazer, nem falar nada. Mas seu comportamento esquisito levou-me a indagar o motivo de tanta indigestão.

- Afinal posso saber a razão dessa sua antipatia facial?
- Estou normal - disse-me ele -, resistindo em falar.
- Normal você não está, sabe disso.
- Deixa de se intrometer na vida dos outros.
- Eu só estava querendo ajudá-lo.

O rapaz deu uma volta pelo escritório, certificou-se que ainda ninguém havia chegado, achegou-se para mais perto e começou:

- Passei a noite sem dormir, imaginando como seria o dia seguinte. Realmente era o meu maior sonho. Tanto tempo de espera e, afinal, minha vontade seria satisfeita. Parecia um sonho! Mas, eis que acabo de abrir o meu e-mail e lá estava a mensagem: 
- “Tudo bem? Hoje cheguei aqui já pensando em te escrever. Me desculpe pelas coisas que eu te disse ontem. Estava carente e andei falando umas bobagens. Não vou trair meu namorado, porque o amo demais. Você é um amigo especial...beijo. “

Quase não acreditei nas palavras de Bonifácio. Estaria brincando. Nunca me havia contado nada sobre esse seu amor. Como conhecemos pouco as pessoas, pensei!
- E então? Essa é a causa da sua tristeza? - perguntei.
- Queria me ver alegre? Pensei muito. Tive momentos de raiva e desespero, mas acabei respondendo seu e-mail: “Compreendo. Também pensei muito e acabei concluindo que somos duas pessoas sérias. Não que eu não tenha passado a noite idealizando fantasias e ansioso por encontrá-la. Um desejo incontrolável, uma vontade de satisfazê-la e satisfazer-me, ao menos por alguns minutos. Mas não tem problemas, prefiro que tenha sido sincera. Acho que tua atitude está correta, ontem fomos levados por uma vontade que não sei explicar. Vamos continuar sendo esses amigos “especiais”. O teu namorado precisa de tua honestidade.

- Que história louca, Bonifácio!
- Pois é!... e ela ainda teve coragem de me responder: 
- “Que bom que você me entende. Beijo.”

Parafraseei o seu velho ditado: Se queres conseguir um amor antigo, não tenha pressa. 

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