A CIRURGIA

Porque o homem - já anestesiado e deitado -  começou a apresentar uns sintomas estranhos, sentiu necessidade de saber algumas coisas sobre o paciente:
- O senhor tem algum problema de saúde? – interrogou o Dentista.

O homem, naquela situação, deitado sobre a cadeira, com a boca aberta, um tampão a lhe cobrir o rosto,  bochechas e língua amortecidos, simplesmente esboçou algumas palavras inaudíveis. 

Ficou a se perguntar se o dentista não sabia que era impossível falar alguma coisa naquelas circunstâncias. Tivera tanto tempo de preparativos e vinha ele  perguntar-lhe agora se tinha algum problema de saúde?
De sua parte estava consciente que as dúvidas que tinha havia perguntadas e esclarecidas todas. Sabia que o procedimento demoraria em torno de uma hora. Que poderia estender-se a mais tempo se acontecesse algum imprevisto.
Entrara para aquela cirurgia consciente e, dentro de suas limitações, esclarecido.

- Tudo bem? Está doendo? – perguntava-lhe o assistente de intervalos em intervalos, controlando o sugador.

- Nãããooo... Sabia que o bisturi, sem piedade, estava abrindo suas gengivas a procura do osso. Esse sugador está com defeito pensava, sem poder falar. Sentia o cheiro de sangue quando aquele líquido pastoso passava pela sua garganta, provocando-lhe enjoo.

Enquanto o serviço prosseguia, imaginou-se um mutilado. O Dentista parecia um carniceiro frio. Graças a Deus, pensava, não desviava aquele fio cortante do seu caminho. Se perdesse o rumo, poderia fazer estragos.

Pausa...

O homem percebeu que o Dentista interrompera o seu trabalho. Pôs-se a analisar umas chapas de “raio xis” presas à uma das paredes da sala.
- Um pequeno defeito no osso -, comentou com o Assistente, após examinar com cuidado – terei que mudar o procedimento.
- Ummmm..., e remexeu-se na mesa.
- Está tudo bem? , voltou a perguntar o assistente.
- Tuuuudoooooo, respondeu o homem.
- Mais um pouco que está terminando - recomendou!

Alcança a broca – pediu. E voltando-se para a Assistente disse-lhe:
- Anote, começa pelo número 16.

- Dezesseis..., pensou o homem. Nossa que coincidência: o dia do seu nascimento. Tomara que seja isso mesmo. Pretendia renascer para as mastigadas. Para as costelas gostosas. Para a possibilidade de comer uma macã, triturando-a nos dentes!

E o Dentista continuava o seu trabalho de furar osso e colocar implantes. A cada um que terminava ditava o número que era anotado pela Secretária.

O homem, naquela sua posição, ouvia atenciosamente as conversas que travavam os dois profissionais. Pela tranquilidade das conversas, deduzia que tudo estava correndo bem.

Passou a se preocupar com o trabalho da Secretária: estaria ela anotando de forma correta aquela sequência de números que lhe eram ditados assim que os parafusos eram colocados?

- Transcorreu tudo bem – informou o assistente pedindo ao homem que levantasse.
- Tome este remédio de oito em oito horas, durante três dias. Este outro em caso de sentir dor. Use bastante gelo nas gengivas, sorvete à vontade, comida apenas líquida. Em caso de algum imprevisto, ligue ou venha até aqui.

Após ouvir as recomendações, o homem, num gesto de a-gradecimento e despedida, estendeu a mão aos dois Dentistas. Para a Secretária dirigiu uma atenção especial, cheio de súplicas:

- Por favor, torço para que tenha anotado bem os números!

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