A GUERRA DO FIM DO MUNDO


Acabo de ler o livro “A Guerra do Fim do Mundo”, de Mario Vargas Llossa – Prêmio Nobel de Literatura. Escritor peruano que encantado com o livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, dedicou-se à pesquisas e viagens pelo sertão brasileiro onde ocorreram os fatos e acabou escrevendo essa obra genial.

A Guerra do Fim do Mundo conta detalhes que encantam e emo-cionam. Não tão objetivo quanto “Os Sertões”, consegue, todavia, mostrar o fascínio e o poder que “Antônio Conselheiro” exercia sobre  todos os seus seguidores. Transformou jagunços perigosos, malfeitores e criminosos em seus maiores defensores.
O povo pobre do norte da Bahia e Sergipe consideravam-no um enviado de Deus. Todos deram suas vidas pelo Beato.

Antônio Conselheiro não foi morto pelo exército que tomou e destruiu Canudos. Morreu dias antes, acometido de uma diarréia que o matou lentamente. Sua morte não foi comunicada. Aos seguidores e habitantes de Canudos foi dito que havia sido levado para o céu.
Enterraram-no sigilosamente enquanto Canudos estava sendo atacada pelo exército e a população se defendia heroicamente. Mais tarde seu corpo foi desenterrado, sua cabeça separada do corpo e exposta em Salvador como um trunfo.

Seus principais seguidores - quando perceberam que a morte do chefe se aproximava -  passaram a reverenciá-lo ainda mais. Ao redor de Antonio Conselheiro havia todo um “staff” que o protegia. O mais importante de todos chamava-se Beatinho.

Vejam uma passagem do livro, para se perceber a que ponto chegou o fanatismo. É Beatinho falando, à página 546:
“Por que era tão egoísta? Por que não ficava contente ao ver que o Conse-lheiro ia descansar, subir para receber sua recompensa pelo que fez nesta Terra? Não deveria, pelo contrário, entoar hosanas? Sim, deveria. Mas não consegue, sua alma está dilacerada. ‘Vamos ficar órfãos’, pensa outra vez. Então nota o barulhinho que vem do catre, que escapa de baixo do Conse-lheiro. É um barulhinho que não afeta o corpo do santo, mas a mãe Maria Quadrado e as beatas já o cercam para levantar o hábito, limpá-lo, recolher humildemente aquilo que – pensa o Beatinho – não é excremento, porque o excremento é sujo e impuro, e nada que provenha dele pode sê-lo. Como poderia ser suja, impura, essa aguinha que emana, sem trégua, há seis, sete, dez dias, desse corpo dilacerado? O Conselheiro comeu alguma coisa, por acaso, nestes dias, para que seu organismo tenha impurezas a evacuar? ‘É uma essência que jorra ali, é parte de sua alma, algo que está nos deixando.’ Intuiu no ato, desde o primeiro momento. Havia qualquer coisa de misterioso e sagrado nesses peidos súbitos, entrecortados, prolongados, nesses ataques que pareciam não terminar nunca, sempre acompanhados pela emissão dessa aguinha. Adivinhou: ‘São óbolos, não excremento’. Entendeu claramente que o Pai, ou o Divino Espírito Santo, ou o Bom Jesus, ou Nossa Senhora, ou o próprio Conselheiro queriam submetê-los a uma prova. Com uma feliz inspiração se adiantou, esticou a mão por entre as beatas, molhou os dedos na aguinha e levou-os à boca, salmodiando: ‘É assim que você quer que seu servo comungue, Pai? Isto para mim não é orvalho?’ Todas as beatas do Coro Sagrado também comungaram com ele.”

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