DOMÍNIO PERDIDO

Ele mandava em tudo. Ele era Rei. Ninguém contestava, todos obedeciam:
- Avisem que é para fechar o comércio! E lá saía o exército dos divulgadores. Quinze minutos depois o recado estava dado e a ordem cumprida.

- Informem à diretora daquele colégio que o seu nome está na minha lista! A diretora recebeu a ameaça, mas não falou nada. Requisitou policiais que demoraram para chegar.


- O Jacaré deve morrer! No dia seguinte ele amanheceu duro sem que ninguém tivesse ouvido nada, nem tiros, nem gritos. Sem que ninguém se encorajasse a falar, quando a polícia chegou.


- Vejam quem não está produzindo! E uma semana depois faltava estoque para vender.


- Fiquem vigiando a entrada daquela rua! Em minutos as esquinas eram ocupadas e a polícia não tinha coragem de entrar.


- Controlem as manobras das patrulhas! E os rojões espoucavam nos mais diversos lugares. Os chefes recebiam visitas e o dinheiro lhes era entregue em espécie.



Naquele exército tinha crianças, muitos jovens, adultos e velhos. Ninguém frequentara aulas de instrução, adestramento, estratégias, mas todos sabiam: Ele era o Rei e o rei tinha que ser respeitado e obedecido.



Passaram a indagar qual era a formação do Rei. Que faculdade fizera e ninguém sabia informar. Aquilo despertou curiosidade e quiseram saber. Para espanto, descobriram que ele não tinha faculdade, nem frequentara qualquer banco escolar. Era analfabeto. Nascera por nascer. Formara-se na escola da vida. Crescera entre as ruelas de um bairro que se prostituía. Passara fome. Presenciara jorrar sangue. Muitos mortos pelas ruas.



Ele era rico. Seu olhar magnetizava. Sua presença impunha respeito. Suas ordens não se discutiam. A miséria pusera-se ao lado dele e a cada dia mais o amava e o tornava forte.


Seus domínios se ampliavam à custa da expulsão, da truculência, de eliminação. Já haviam lhe pereparado muitas "casas de caboclo", mas sempre saíra incólume. Morrer agora seria mais difícil porque ele era pai e Rei.


Um dia ele recebeu carta da diretora. Aquela a quem mandara um recado pedindo para que se cuidasse. Era uma mensagem simples, nesses termos:


"Recebi o teu aviso e confesso que pensei muito sobre ele. Acho que ambos estamos fazendo tarefas a que nos propusemos. Você, executando a tua, eu a minha. Missões difíceis essas nossas, mas muito mais a minha! Você deve ter filhos, mande-os para a escola, nós os educaremos, tratá-los-emos com carinho. Vamos habilitá-los para que não continuem o teu trabalho! Não queremos disputas, nem confundir objetivos, vamos fazer aquilo a que nos propusemos. O mundo é feito de situações e muitas vezes os interesses invadem territórios. Os nossos são conflitantes, mas não a ponto de impossibilitarem nossos trabalhos. Não cabe a nós julgar os teus, mas não é competência sua impedir o que fazemos. Visite-nos, teremos prazer em recebê-lo."



Ele não veio. Nunca mais fez ameaças. Mandou seus filhos que se tornaram bons alunos, se alfabetizaram, evoluíram. Depois de certo tempo, pareciam até condenar o trabalho do pai. Não aconteceram mais arrastões nas vizinhanças. Dos muros sumiram as pichações. A escola tornou-se um local alegre. Tinha teatro, concursos de músicas, feiras. Notava-se a presença dele, mas desconhecido de todos.


A convivência pacífica entre esses extremos durou até o dia em que um Rei mais poderoso invadiu o seu reino. Esparramou pânico, eliminou-o e o exército foi substituído.


Tudo voltava às bases! Nem se prever o futuro era possível. Talvez uma continuidade, talvez um fim! O bem e o mal se digladiando, se respeitando, se alternando nessa eterna gangorra que substitui os poderosos, que estabelece os períodos de reinados, atualizando os incapazes, mas deixando saudades dos períodos bons!



Apesar de tudo, ele tinha coração!
Morrera porque morrer é o destino do Rei quando aparece um mais poderoso.


Nota: ilustração tirada do google.

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