INCIDENTE

O homem foi acordado com as arranhadas insistentes do cãozinho na porta do seu quarto. Tão pequeno ele e fraco que nem conseguia latir. Precisava avisar seu dono de que algo estranho estava acontecendo.
Bairro tomado pelo silêncio naquela madrugada fria. Depois de incontáveis arranhadas, ele acabou acordando. Ainda dominado pelo sono, concluiu que havia alguma coisa de anormal. O cão era um dorminhoco e jamais havia tido um procedimento desses.

Espreguiçou-se tentando acordar. Jogou as cobertas para um lado e ficou na escuta. Pensou ligar a luz do quarto, mas teve prudência.
O cão enfiou-se por entre suas pernas, quando abriu a porta, balançando o rabo e lamuriando.
Expiou com cuidado para o lado de fora. Havia alguém dentro do carro e o portão da garagem estava aberto. Tinha certeza de que deixara tudo como recomenda a segurança. Cadeados postos.
Concluiu que estava sendo roubado. A arma estava no lugar de sempre, num canto do quarto, protegida das crianças.
Decidiu que o ladrão ia morrer. Aplicaria a justiça em quem não segue as leis. Com uma arma daquelas não havia como errar. Poderia escolher o ponto mais mortal para não correr qualquer risco.
Caminhou pela sala de arma em punho. Olhou para se certificar de que não era ninguém da família. Constatou não conhecer a pessoa quando ligou a luz da garagem. 

Atingiria a cabeça? O peito à altura do coração? Tinha convicção de que o ladrão não sairia do carro se decidisse por um desses alvos. Pensou. Mirou. Primeiro na cabeça. Depois no peito. Decidiu não se transformar num criminoso. Permitiu que o homem saísse. Feriu-o na perna. Caiu com o fêmur estraçalhado, já na calçada. Trouxe-o para dentro da propriedade. Ordenou que ficasse ali. A criatura obedeceu dando gemidos e observando o castigo que recebera.
A viatura policial não chegou rápida. A ambulância algum tempo depois. O homem foi transportado para ser socorrido.
Meses de recuperação e perna engessada.
Neste tempo maquinou vingança.

Numa noite o homem foi acordado mais uma vez pelas arranhadas e lamúrias do cãozinho. O outro voltara. Pela fresta da janela percebeu que o bandido trazia numa das mãos um revólver.
Seria ele ou o outro, pensou. Que fosse o outro. Mirou a fronte. O homem caiu.
Há dois anos que o sossego terminou. Recebe constantes ameaças. Depoimentos intermináveis na justiça.
Reuniu a família e decidiu mudar-se. A casa, que levou tanto tempo para construir, ficou abandonada. Nem interessado pela sua compra achou. Decidiu pagar aluguel num lugar distante, para conservar a vida e manter a tranquilidade.

Comentários

Anônimo disse…
Já estou com saudades de vcs...
bjs
fe

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