HISTÓRIAS DE BONIFÁCIO

Bonifácio contou-me isto. Viera de uma família pobre. O pai, sapateiro, consertava sapatos e recebia encomendas para novos. O dinheiro mal dava para o sustento dos oito filhos. Anos após anos, um atrás dos outros, todos pequenos, faziam aquela casa chorar o dia todo.

Saiu de casa cedo. Parece que tinha doze anos. Primeiro tentou ser padre. Anos depois achou que não servia para isso. Foi procurar outras coisas e, por muito tempo, andou sozinho.

Tinha estudo e virou professor. O salário que começou a ganhar logo no começo de março, só foi receber em outubro. Os amigos custearam suas necessidades nesse período.
Quando outubro chegou acabou-se a carestia. Pagou os financiadores e ainda sobrou dinheiro para um carro. Novo não dava, bem que queria! Concordou com um fusquinha velho.
Nossa, nem acreditava na aquisição!
Programou uma viagem de natal para visitar seus familiares. E foi. O carrinho velho era bom demais, concluiu! Seiscentos quilômetros num dia só. Nem deu para esquentar o motor.

Disse-me Bonifácio que hoje está com sessenta anos e acabou de comprar outro carro, dos muitos que já possuiu. Novo. Saído da concessionária. Sem quilometragem. Ar condicionado, volante hidráulico, vidros elétricos, alarme, câmbio automático, películas especiais para escurecer os vidros e muito mais coisas que o progresso usa para afrescalhar os veículos atuais.

Lembrou-se dos seus vinte anos. Veio-lhe à mente o fusquinha usado. Cheio de números no registrador de quilometragem. Tantos que nem lugar tinha para mais algarismos.

Tentou reviver as emoções que sentiu ao virar a chave da ignição. Pela primeira vez ouvia o motor roncar produzindo um som meio engasgado misturando-se à fumaça preta que saía pelo escape. Disse-me Bonifácio que essa emoção não podia ser descrita.

Observa o carro novo que acabou de retirar da agência. Não sentia nada. Apenas a necessidade resolvida de que precisava se atualizar para não correr o risco de ficar para trás. Perdera a virtude de ter sentimentos. O apego depositado na sua primeira compra jamais seria sentido nem depositado neste novo.

Quando os vidros se fecharam e os computadores informaram que o motor estava ligado e pronto para sair, não ouviu o ronco antigo. Não percebeu qualquer fumaça saindo do escapamento.

A nova aquisição deslizava silenciosa pelo asfalto. Não parecia disposta a conversar com o seu dono. Não seria possível uma conversa, porque também Bonifácio estava sem assunto.

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