PASSANDO

Vendo-te ali prostrado a não querer mais nada,
a não sentir fome, nem a idealizar sonhos,
a não se mexer para fugir da goteira que cai,
a ignorar os transeuntes que não o encomodam,
a implorar que não o deixem sozinho,
a solicitar que apaguem a luz,
a não sentir mais a falta dos passarinhos,
a divagar lembrando-se do passado,
sem reservar mais tempo para pensar no futuro.

Vendo-o ali tão abatido e descorado,
arfando com cuidado, sem barulho, mirrado,
querendo iludir os outros, dizendo que está bem.

Vendo-te no presente,
lembrando do passado,
do homem que fostes
e o homem que és,
dentro de mim uma tristeza me sufoca,
ante a evidência da passagem.

Parece estares descendo a serra,
a percorrer os últimos caminhos,
a divisar o vale
onde planejas associar-se à terra.

Cansastes das lutas?
Evitas as batalhas que te manteriam a vida?
Cada vez parece-te mais presente
a sensação inquestionável de que perdeste a guerra.

(23/10/2009)

Comentários

Nelci Peripolli disse…
LINDO! Emociona e mexe na ferida!!!

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