"AMOR À VIDA"

Não sou afeito à novelas. Talvez pela falta de tempo, nunca tive muita queda pelo gênero. Agora que estou entregue às irresponsabilidades de uma pessoa aposentada e sem qualquer compromisso marcado, dei de ligar a televisão com mais assiduidade.

Chamou-me atenção a novela Amor à Vida, da Globo, exibida diariamente após o Jornal Nacional. Despertou-me curiosidade e preocupação os acontecimentos mostrados ali. Não que me considero um “velho babaca” e ultrapassado, como a Aline chama o Lutero, mas confesso que cheguei a sentir um mal estar em certas ocasiões.  Mostra-se uma ruptura dos costumes tradicionais e da moralidade cultivados ao longo da nossa vida. Cenas explícitas de sexo, transgressão aos princípios morais, demonstração das falcatruas praticadas em setores que julgávamos sérios (hospitais), falsificações de exames e documentos, demonstração da fragilidade do casamento, normalidade nas transgressões matrimoniais, traições familiares objetivando lucros. Sadismos, indiferenças e desrespeitos.

Numa certa noite a novela parecia uma “zona de meretrício” amplificada. Não que isso de fazer sexo não seja bom, mas dentro de uma normalidade e coerência.   A personagem Valdirene, vivendo conjugalmente com o milionário Inácio, estava na cama com o Carlito, seu amor antigo, acobertada pela mãe; o médico Michel, casado com a advogada Sílvia, mantinha relações sexuais com a Patrícia; a Sílvia, para se vingar do marido, encontrava-se num motel com o Guto, esposo da Patrícia. O quarteto sabia da situação, encarava tudo com normalidade e se revezava na ocupação da suíte máster.
 
O Thales, acordado com a Leila, sua ambiciosa namorada, casa-se com a milionária Nicole que estava com os dias contados, para se apossar da herança dela. (Agora parece que estão querendo aplicar o mesmo golpe na Natacha, suposta irmã da falecida, que apareceu para reaver a fortuna).

O Atílio, alegando falta de memória, embora casado, casa-se com a Márcia, de quem se apaixona e continua mantendo relações sexuais com a sua primeira mulher, Gigi e também com a segunda, Vega.

O gerente do hospital, César, alimenta um relacionamento amoroso com a sua secretária (Aline) provocando um divórcio com a esposa (Pilar). E antes já fora amante da Edite, mulher de programas, que arrumou para casar com o Félix, suposto filho, a fim de disfarçar sua situação de gay.  César é o verdadeiro pai do Jonathan que dizem ser filho de Félix e Edite. 

O médico Michel, que trabalha no San Magno e insatisfeito apenas com as visitas acompanhadas ao motel, utiliza-se do seu consultório para fazer sexo com a amante (Patrícia), cancelando consultas marcadas, para se entregar ao delírio e ao prazer.

 E o Félix, dizer o que do Félix? O personagem mais inescrupuloso da novela: coloca a filha da irmã (Paloma), recém-nascida, numa caçamba de lixo para que morra, pensando em obter resultados financeiros. Ordena o sequestro de Paulinha pagando o Ninho e a Alejandra a fim de que a levem para o Peru e em conluio com uma médica do hospital San Magno (Glauce) falsifica exames de DNA para que a criança não seja reconhecida como filha de Paloma. Insinua e oferece cargos no Hospital à pessoas compromissadas com satisfazer suas necessidades sexuais. Menospreza e humilha funcionárias (Cadela), pratica diariamente atitudes que contribuem para desvirtuar o funcionamento do hospital.

A Perséfone, criatura desregulada e estranha como é seu nome, debate-se com dois problemas: a obesidade e a virgindade. Agita-se, desespera-se, toma constantes iniciativas para se livrar desses pesos e porque enfrenta dificuldades e preconceitos (bulling), leva uma vida de permanente angústia, que irá diminuindo à medida que deixa de ser virgem, mas que gera tumultos e continuam as preocupações, porque não consegue ser magra.

A maior parte dos personagens apresentam anormalidades de comportamento e caráter. Cita-se alguns: César, Félix, Lutero, Atílio, Edith, Márcia, Valdirene, Carlito, Inácio, Leila, Ninho, Herbert, Aline, Gigi e Gina.

Somente Paloma e Bruno parecem seguir a linha comum das coisas e, em consequência disso, chegam a irritar o público com suas atitudes “excessivamente certinhas”. A ingenuidade de Paloma e a permanente desconfiança e cafonice de Bruno tornam-nos dois seres soltos, diferentes e perdidos dentro do contexto, dando a impressão de que atitudes e comportamentos assim já não são mais aceitos.

E o San Magno? Local aonde tradicionalmente todos chegam para curar seus males físicos, é um antro de discórdia, disputas e imoralidade. Falsificam-se resultados de exames, cometem-se assassinatos que são ocultados, utiliza-se o local para o “rendez-vous”, desrespeitam-se os direitos trabalhistas, executam-se desvios de dinheiro, acobertam-se procedimentos clínicos e é o palco de uma acirrada disputa de poder entre membros de uma família, prejudicando o efetivo funcionamento daquele nosocômio. Seria para mostrar a situação das casas hospitalares?

Como sempre acontece, tudo vai acabar em “pizza”. Tudo vai ser colocado dentro dos vidrinhos. Passa-se uma eternidade praticando-se o erro, cometendo irregularidades, evidenciando cenas duvidosas e amorais e um capítulo final mais prolongado e normalmente repetido, acerta tudo. Os sofrimentos desaparecem, os pecados são perdoados, a felicidade e os risos retornam às fisionomias de todos. As amizades e relacionamentos perdidos são refeitos. Os abraços surgem espontâneos e mais fortes. Os beijos deixam de ser o indício de relacionamentos duradouros. O local do encerramento e dos acertos é um espaço amplo, cheio de gramados, um lindo lago, árvores e pródiga iluminação. Sorrisos estão em todas as faces, os mortos ressurgem, os culpados vão para a cadeia e uma nova vida recomeça para todos.

Os ouvintes menos preparados, com certeza, questionarão, mas poderão achar normal tudo o que de errado se divulgou, mesmo porque praticar o que se apregoa na televisão pode inserir motivos de progresso, atualização e modernidade.

CONCLUSÃO:
Os responsáveis por zelar dos bons costumes, manter o moral e a ordem para que o mundo possa caminhar dentro da tranquilidade, omitem-se, calam-se, assistem indiferentes às práticas dos desmandos presentes em todas as manifestações. Não avaliam nem recriminam os malefícios causados. Não querem perder adeptos nem votos, tendo sempre em mente a possibilidade de um arrependimento e de uma conversão que irá engrossar o número de simpatizantes. Aliciam, passam a mão à cabeça,  omitem-se da razão de existirem.

Será amor à vida?

Comentários

Alceu Gehlen França disse…
Boa noite Mário.
Nunca vi um capítulo da novela. Mas todos os dias quando acesso a internet, para saber das notícias boa parte do conteúdo de todos os canais da web, são notícias das novelas, além de muitas revistas que nos colocam na cara em todos os mercados que só tratam do assunto: novelas.
Embora quase todos os canais de TV não ofereçam nada de útil, eu ainda não entendi porque não se utiliza aquele botão que diz liga e desliga no televisor...
Com a televisão que temos sempre seremos as vaquinhas de presépio, sem opinião, sem educação, sem leitura, sem futuro...
Algumas vezes dá vontade de largar tudo e ir morar no Paraguai, pois temos a certeza que tudo é falsificado, aqui muitas vezes ficamos nos iludindo que um dia vai melhorar.... Ai meus dezoito...

Um abraço.
Alceu


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