A SOLIDÃO DAS ILHAS DO RIO PARANÁ

O rio Paraná parecia um relógio armado no seu despertador, dando sinais quando a enchente estava para chegar. Todos os anos - lá pelo mês de novembro -  ia enchendo e só parava no final de janeiro. O que acontecia nesse período, somente os ilhéus e ribeirinhos eram capazes de contar.

Certo tempo -  lá pela década de oitenta -  moravam naquelas ilhas aproximadamente cento e sessenta famílias. Todas pobres, doentes, sem instrução, que nem vontade de trabalhar tinham. Desestimulavam-se com as lavouras, pois era só plantar e a água levar quando chegava. Havia crianças maltrapilhas que corriam a se esconder, quando ouviam o barulho dos motores de popa chegando. Pensavam que era o pessoal da saúde vindo para lhes aplicar vacinas.

Mas esse povo amava o lugar onde morava. A cheia já era coisa normal na vida deles. Sabiam que a Prefeitura viria socorrê-los quando chegasse a hora. Ficavam ali vendo o rio subir e aguardavam. A assistência sempre chegava trazendo barcos carregados com alimentos, roupas, remédios que eram distribuídos, e esses cuidados achavam suficientes e compensadores para que teimassem naquela permanência.

A população da cidade não via com bons olhos tanto paternalismo, mas acabava concordando, consciente de que os ilhéus constituíam um reduto de votos capazes de decidir uma eleição. Isso sempre era explorado pelo poder constituído.

Pela situação geográfica da bacia do rio Paraná, naquela região, todas as pessoas que moravam nas ilhas e também os que habitavam nas margens dos seus afluentes, do lado do Mato Grosso do Sul, tinham que ser assistidas pelo Paraná. E todos acabavam chegando a Querência do Norte. Naquele Estado, as margens dos rios são constituídas de enormes pantanais que não oferecem alternativas, nem estradas têm para facilitar o escoamento. A única saída era pelos barcos que desciam os rios e chegavam aos portos querencianos, onde, normalmente, estavam montados os postos de assistência às vítimas das cheias.

Diante da situação, com o passar do tempo, o trabalho unido da prefeitura, defesa civil estadual, promotoria pública e órgãos de assistência social acabaram por concluir que aquela situação não podia continuar. Seria necessária a retirada da população que habitava aquela região. As condições de vida que enfrentavam não eram justas. Sem condições de planejarem qualquer desenvolvimento familiar, empobreciam e ficavam mais doentes a cada cheia que chegava. Os setores públicos não tinham como investir em projetos sociais, saúde, educação nesses lugares, pela transitoriedade dos acontecimentos.

Tentaram até o transporte das crianças que, através de barcos, eram trazidas à margem e dali levadas para estudar na cidade, mas isso também se tornou inviável. As crianças precisavam acordar às cinco horas da madrugada para aguardar a embarcação que passava todas as manhãs. O rendimento desses alunos nos bancos escolares era sofrível e não conseguiam acompanhar as matérias. A única vantagem: passaram a se alimentar melhor; mesmo assim, ficavam a maior parte do tempo sonolentos nos bancos das escolas.

Hoje a ilhas não abrigam mais aquela população. Seus ranchos foram desmanchados. Os pequenos plantios de subsistência desapareceram. A vegetação local se recupera lentamente e o sentido humanitário inicial não foi posto em prática.

Indenizados, ancoraram na cidade, onde gastaram os seus dinheiros sem qualquer controle. Sobrevivem nas periferias à custa de raros trabalhos de bóias-frias. Nem adiantaria terem ficado, pois as cheias não chegam mais ao rio Paraná que, controlado pelas represas, parece um gigante adormecido.

As florestas se recuperam, os bugios urram cada vez mais forte, árvores novas começam a debruçar seus galhos sobre o rio, novamente soltando os primeiros frutos amadurecidos. Tem gente que afirma ter visto onça nadando naquelas águas atravessando os canais, para buscar comida em outras ilhas. O fogo que outrora varreu aquelas terras foi embora e está ressurgindo o verde das copadas, onde, nos galhos mais altos, saltam bandos de macacos. Ensaiam saltos de liberdade.

Findaram-se as festas tão comuns naquelas ilhas: bailes, encontros, puxirões, visitas entre as famílias dos pirangueiros, dos que vinham da cidade rever amigos trazendo litros de cachaças e muita carne para ser comida ali.

As ilhas começam sua volta ao sistema primitivo, ao silêncio e a recuperação. As picadas vão se fechando. As barrancas se recuperam. Bichos silvestres retornam, e as árvores, timidamente, iniciam um novo crescimento, numa disputa indescritível por espaços.

Dali a voz humana foi expulsa, volta o silêncio da floresta, o cantar dos passarinhos livres, árvores a produzirem frutos para os peixes que esperam.

Todos festejam o recomeço da solidão numa sinfonia que retorna ao tempo antigo.

Comentários

Antonio disse…
Como é possível que de um ambiente tão desfavorável surja um WAGNER BARRETO vencedor do Voice Kids 2016?

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