OS DOIS LADOS

Ela está com oitenta anos, ele completa vinte. Ambos dormem, em plena segunda-feira, enquanto o sol racha lá fora. Os da casa passam sorrateiramente para não interromper o resfolegar da anciã, mas não se preocupam com o sono pesado do jovem. Também, não é justo que esteja a dormir a essas horas, em pleno dia de trabalho! Torcem pela permanência do sono dela, não se procupam com o dele.
Ambos não haviam dormido durante a noite anterior. Ela pelas dores que sentia no corpo todo; ele, em consequência da agitação, da bebida e dos momentos aprazíveis da juventude. Aquele sono lhe trazia momentos de alívio e tranquilidade, num sono profundo proporcionado pelos remédios que, finalmente, dominaram-lhe o corpo; ele tinha um sono agitado, doía-lhe a cabeça, o corpo estava um trapo, boca ressequida, respiração ofegante. Não convinha que se preparasse o almoço dela; faltava apetite nele.
Estive a pensar nesses extremos e conclui que a velhice precisa de dormidas para livrar-se do sofrimento e da dor; enquanto a juventude entrega-se a elas com o objetivo de recuperar as forças que anda constantemente a perder.
Pensei na utilidade de um e do outro nessas etapas da vida. A primeira - sem qualquer perspectiva - a observar o caminhar do mundo e a se dizer que naquele tempo aquilo não era assim. O segundo - descompromissado e indiferente - entende que precisa aproveitar as coisas, viver a vida na intensidade, não querendo acreditar que o sono do futuro virá mais cedo, mas terá a ajuda dos avanços da medicina. Enfrenta as dores provocadas, sem a preocupação com as que virão adquiridas.
A primeira acordou porque os efeitos terápicos haviam passado. Soltava gemidos surdos. O segundo quis tomar café quando já se encaminhava a janta. Ainda teve tempo de ver os últimos raios do sol que se punha, despedindo-se daquele astro que vira nascer.
O que faria com a noite que se aproximava? Teve pena, sentiu a consciência pesada quando ouviu os gemidos surdos da avó. Tinha uma certeza: ambos passariam a noite acordados, ela porque não conseguia dormir, ele porque não queria. Um desejava que a noite não existisse, o outro se preparava para vivê-la! Um não alimentava qualquer esperança, o outro sonhava com os momentos que estavam por vir. Num as dores haviam passado e a vitalidade estava recuperada; na outra, elas se acentuavam fazendo com que o corpo ficasse cada vez mais fraco.
Que observação conformista ando a fazer! Poderão se inverter as coisas, alterar-se o andar do tempo, tirar as dores da vovó e incuti-las, por um momento só, naquele jovem para que na mocidade pudesse entender o que o estava esperando no futuro?
Nem posso, nem convem que se façam mudanças! As etapas devem ser cumpridas a seu tempo. Por que interrompê-las ou castrá-las? Virá a meia idade da quase perfeição onde o descanso das madrugadas serão reconfortantes, inexistem as dores e os gemidos, onde o sono perdura à noite povoando de sonhos e desejos que serão realizados nos longos dias de sóis.
Não me foi difícil concluir: um era o sol nascendo; a outra, ele se pondo!

Comentários

MULHER DE FASES! disse…
e assim a vida avança...na escala do tempo, da caducidade...mas a vida está la, eterna, soberana, nós é q estamos na palma das maos da vida...ora fuginda da dor, ora nos refugiando no sono, penso q nesses tempos, nao precisa ser ancião para se esconder das dores, muitas vezes nem tanto dores do corpo, mas dores da alma, vejo pessoas ao meu lado, dormirem p esquecer a depressao, a ansiedade, se esconderem do outro,pelo simples medo de enfrentar os momentos ruins, penso q isso seja pior do q o jovem q dorme para se recuperar da ressaca,ao menos ele certo ou errado, vivenciou o q no momento lhe é agradável, claro, de modo errado, pois para mim, viver, curtir, implica observar,curtir os nossos queridos, conversar, trocar conhecimentos, confiar no outro, desabafar...mas sabe, o jovem, qm sabe, caia em si e observe sua avó e só assim, comece a perceber os valores reais da vida...q é eterna...q é aprendizado, estamos aqui de passagem, mas nao à passeio...
pena q muitos saibam disso, tem inteligencia, mas se escondem atras de problemas , doenças, se isolando e isolando qm mais lhes ama...por puro egoísmo...isso é o pior..egoismo...

em relação ao meu post anterior, eu me arrependo mais do q nao fiz do q fiz...se tivesse feito o q eu queria,hj com certeza, eu estaria bem mais feliz...mas nunca é tarde pra virar borboleta...
adoro seu blog!!
abço fraterno Mario!!!!

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